Eu queria fazer diferente aquela noite, não ser alguém que eu não sou mas alguém que aprendeu as lições que a vida deu, eu queria provar pra mim que os problemas já haviam sido resolvidos e superados e que agora era possível não precisar fugir ou me render, mas sim enfrentar, dar a cara a tapa e ao menos uma vez na vida conseguir um fim decente ou uma chance de começar alguma coisa especial.
Discursos ensaiados no banheiros, ditos em frente ao espelho, decepções choradas antes, o passado revivido para não existir erros, detalhes analisados para me lembrar de que esse momento era importante, essencial e faria toda a diferença. Eu sai de casa pronta, com um roteiro e nada daria errado.
Me esqueci do mais importante, isso é a vida e ela não é uma peça que você pode ensaiar porque embora você saiba o que fazer não sabe o qual palco ela vai te oferecer, e o palco, a platéia, os outros atores fazem toda a diferença, tornam a vida cheia de surpresa. E porque aquela noite seria diferente? Porque o plano daria certo?
Não deu. E eu já notei que não seria nos primeiros momentos, quando eu me vi voltando as reflexões que tive por longos quatro anos quando vi a primeira pessoa que foi importante pra mim sem precisar ser sangue do meu sangue, a primeira pessoa que falou que me amava, que íamos ser uma família feliz e eu acreditei facilmente até ouvir ela dizer: "eu acho melhor parar por aqui". E eu lutei, sozinha, achava que um coração batendo forte e gritando amor poderia fazer o outro se render.
Perdi o sentido pela primeira vez, descobri que era uma dramática como poucas e que pior, eu não tinha vergonha disso. Milhares de tentativas e me fazendo sofrer ao provocar o outro a dizer mais de uma vez tudo aquilo que já tinha me machucado o bastante da primeira vez.
Ele estava ali na minha frente, e eu sou capaz até hoje após não ter contato nenhum de reconhecer sua sombra, de lembrar de tudo e de me sentir estranha o bastante e querer provar pra mim que tudo passou.
Respirei fundo, mas não tinha acabado. Logo menos, em outro lugar, outra pessoa, essa com quem vivi menos intensamente, aliás, eu nem vivi, não houve promessas, só estavamos no mesmo lugar, fazendo nada e nos encontramos.
Porém foi especial por ser assim, não haviam promessas, e nem certezas, mas aproveitavamos nosso tempo. Dessa vez eu não era doente, nem dramática, mas o final foi o mesmo, algum dia o que nos deixava juntos acabou, e partimos, seguimos caminhos. E toda vez que eu o vejo eu lembro de me questionar o que é que eu faço que todo mundo acaba partindo de uma forma ou outra. Ou o porque eu não supero nada disso. E como essas coisas ficam na minha cabeça e apertam meu coração até hoje?
Volto a realidade, me lembro do que eu tinha prometido fazer dessa vez, mas ao chegar mais perto eu só consegui me render. Só que dessa vez foi diferente, foi perturbador, se horas eu pensava que aquilo estava sendo tão bom, outras eu me pegava vivendo a mesma coisa de sempre, só que dessa vez a vida já havia me provado por a+b que era hora de me posicionar, pra não acabar com mais uma cicatriz, mas um problema pra superar depois e sempre esquecer, ou não conseguir.
Eu abria a boca e as palavras não conseguiam sair. Não ouvi um adeus, mas um tchau e ao ver ele andar em outra direção, de costas, indo longe eu chorei.
Não foi só por não ter feito meu papel, não foi só por saber que ele mesmo sendo diferente dos outros dois também não era um que queria ficar, e nem tanto porque meu passado apareceu duas vezes em uma noite e eu descobri que não havia superado nada. Ou foi, foi tudo isso. Eu confesso, tudo isso e muito mais.
Fico esperando mais uma chance pra fazer tudo diferente, pra dizer tudo que já repeti mil vezes e pra conseguir de vez deixar esse medo de perder mais alguém ir embora, entender de uma vez por todas que tem coisas que a gente tem que enfrentar.
Eu só quero que tudo acabe, para que algo possa começar. Mas se isso tudo aconteceu em um só dia, em uma só noite, essa mudança também pode acontecer não é?
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